terça-feira, 8 de junho de 2010

A sagração da Primavera #2 ou dois meses sem ir ao Alentejo


- A minha acácia crescia.
Vento soão ! obrigado
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado,
Sem eu sonhar, me chegava !
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura ! ... mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que eu vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.
(José Régio, "Toada de Portalegre")


Na manhã de sol de ontem, ao ver de perto a buganvília do meu terracinho alentejano, apareceu-me por entre as folhas, balançando com o ramo onde poisava, uma espécie de bola de desperdício. Aquilo era estranho aos meus olhos de queque citadino. Não foi à primeira que eu reconheci um ninho. E ainda agora não sei de que espécie é. Pode ser que algum dos muitos milhares de criaturas inteligentes e esclarecidas que têm a honra e a ventura de ler este blogue saiba do que se trata.
Deixei o Alentejo em finais de Março e, por motivos graves, nunca mais lá voltei. Na altura, chovia, estava frio, os ramos da buganvília volteavam descarnados. Ao longe, Beja assentava numa campina que já fora mais verde, mas que ainda o era quando tirei a foto.
Voltei lá agora. Quando abri a porta do terraço, quase tive que abrir caminho no matagal de ervas crescidas no canteiro e dos ramos da buganvília que pendiam do alto. Passámos horas a capinar, podar, limpar, varrer, enxotar abelhas, bichanar a gatos vadios, pôr vizinhos ao corrente.
No horizonte, Beja está na mesma. Mas a charneca até lá mudou de cor. Passou a ocre, e vai doirando lentamente. Em dois meses, tudo mudou à volta das coisas que o homem constrói.

De Março a Junho muita coisa muda, mas na cidade grande pouco nos apercebemos dessas alterações. Quando as estações passam, entendemos vagamente que faz mais ou menos frio, que chove ou deixa de chover, e pouco mais. Perdemos contacto com os ritmos naturais. E quando renovamos com eles, maravilhamo-nos.
Não vou entrar em éclogas. Se as cidades não tivessem coisas boas ninguém morava nelas, e eu gosto muito de cidades, particularmente da minha. Lá também acontece diariamente o chamado milagre da vida, não num ramo de buganvília mas nas maternidades e similares, em barracos da periferia, em camas de dossel e enxergas de gente anónima.
Mas a verdade (desculpa Régio, por te pegar nas palavras, mas como eu te percebo!) é que naquele terraço todo aberto ao sol que abrasa e ao vento que anda e desanda e sarabanda e ciranda - a minha buganvília deitou tenros raminhos novos e neles poisou um ninho que lá continua, espero eu, agora que estou outra vez longe. Ali crescem vidas, e haverá dentro de dias a esvoaçar pelo Alentejo fora dois ou três pardalitos, ou lá o que sejam, nascidos na minha janela. E será loucura, mas isso para mim é uma alegria.

Adenda em 10/6/01: Depois de ontem ter surpreendido a mãe junto dos filhotes e ter visto as manchas amarelas nos flancos, concluí discricionariamente tratar-se de pintassilgos.

5 comentários:

  1. JPB ainda bem tens o previlégio de disfrutar e verificar o mais lindo que a natureza tem, o desabrochar da vida!
    Não é maravilhoso sentí-la e misturar-se nela?

    MJM

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  2. Estou acostumada a ver ninhos de passarinhos,de várias espécies(estado que moro fica cravado no coração da floresta amazônica) mas confesso que igual a esse nunca vi, é bem esquisitão, diferente, é até multicolorido...parece ninho de pássaro urbano.

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  3. Agora que percebi, a terra é azul como uma laranja?
    Há tempos que eu vinha desconfiando estar daltônica,agora confirmei a suspeita.

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  4. "La terre est bleue comme une orange" é um verso de Paul Éluard. Não é daltonismo, é surrealismo. E, portanto, verdadeiro - embora talvez de uma verdade só acessível aos poetas, que são os seres mais lúcidos que há.

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