terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O frio em Paris



Il peut pleuvoir
Sur les trottoirs
Des grands boulevards
Moi j'm'en fiche
J'ai ma mie
Auprès de moi
Il peut pleuvoir
Sur les trottoirs
Des grands boulevards
Moi j'm'en fiche
Car ma mie
C'est toi
  (Jacques Brel)



Há neve nas Tulherias. E um frio de rachar. Nas traseiras da Notre Dame, uma qualquer Cinderella pós-moderna largou um sapato. Ninguém liga. Os príncipes casadoiros não andam na rua com este frio de gelar paixões. Andam na Internet.
Mas na praça St. Michel há gente de joelhos, quieta ao frio, rezando alto, em protesto contra o aborto: Notre Père, qui êtes aux cieux...Que votre nom soit sanctifié... Que votre règne arrive...Que votre volonté soit faite sur la terre comme au ciel.  Eu nem quero acreditar - parece que estou em Fátima e não no Quartier Latin. Alguns CRS vigiam, de equipamento em riste, prevendo qualquer contra-manif. Quem disse que já não se reza na França céptica, "filha mais velha da Igreja"? Em Paris acontece de tudo, já o devia saber. 
Da porta da Madeleine, vê-se ao longe a Assembleia Nacional, com a Concórdia pelo meio: dois templos gregos recobrindo um o poder espiritual, outro o temporal, diante um do outro, iguais nos seus frontões. O urbanista quis pô-los assim, encarando-se, vigiando-se, desafiando-se? Nunca tinha reparado nisso, absorvido com o barulho das luzes. Reparo agora, que entro na Madeleine. Gosto de igrejas, estejam elas onde estiverem. E Paris vale bem uma missa, lá dizia o outro. 

Ali à beirinha compro chocolates, chás e patés no Fauchon. Em Portugal chamar-lhe-iam gourmet. Em Portugal chamam gourmet ao que é simplesmente bom, é uma mania recente, pacóvia e espertalhaça, que serve para cobrar mais pelo que deveria ser corrente. É como o Correio Azul, que leva dinheiro para fazer o que qualquer correio normal e  decente deveria fazer: entregar as coisas a horas. Qualquer tasca de Paris seria gourmet em Lisboa, qualquer café de esquina (são quase todos de esquina) seria casa de luxo, com cadeiras de palhinha, veludos, candeeiros e espelhos. Mas em Paris é simplesmente um café, um sítio onde é agradável estar. 
Ainda por cima com este frio selvagem. Mas Paris com frio também existe. Não dá para a balade, que essa é boa na Primavera, quando florescem os castanheiros. Mas dá para o calor burguês, o vinho morno, o cheiro do papel numa livraria, o amor entre coxins de veludo vermelho e papel de parede com anjinhos e grinaldas. A força dos clichés é tanta que não há remédio.
Há uma Paris para cada gosto. Frívola ou profunda, burguesa ou revolucionária, rica ou pobre. Cada um pode tirar dela o que quiser. As grandes avenidas do barão Haussman foram rasgadas para o progresso, o comércio, a ordem - e também para a cavalaria ter espaço para carregar sobre o povo, depois das convulsões do meio-século XIX. Na margem esquerda já não há calçadas, que foram esventradas em Maio de 68 em busca da praia que se dizia estar debaixo delas, e para lançar os pavés à cabeça dos polícias. Agora o Boul'Mich é alcatroado. Nas vielas de Montmartre ainda se evocam artistas esfomeados, cantores bêbedos, gatos vadios, putas e sons de acordeão, mas também as barricadas e o sangue da Comuna. O Marais de má nota deu em trendy. 
Mas a verdade é que Paris, e a França com ele (ou ela. Até no nome, que não se sabe se é feminino ou masculino, Paris dá para tudo) deixou de produzir génio. Alguém dizia que a França não tinha petróleo mas tinha ideias. Duvido que ainda as tenha, e se não arranjar petróleo depressa, está tramada. Já ninguém fala francês, e até eu, que quase o bebi nas papas da infância, o descubro por vezes enferrujado. Paris não morreu, mas quem a mantém viva são milhões de pessoas para quem a cidade em particular, e a França em geral, ainda simbolizam qualquer coisa que não seja um simples valor de mercado. Para a gente da minha geração, havia duas Franças, qualquer delas um farol. Nenhuma delas existe mais. Mas a memória de ambas vai demorar muito tempo a morrer. E Paris será sempre o que quisermos dela. É por isso que lá voltarei sempre como se fosse a primeira vez.

8 comentários:

  1. Para quem conhece Paris, este texto torna imperioso um regresso urgente.
    Para quem não conhece, não lhe dará tanto prazer, mas com certeza levará alguns a desejarem conhecer.
    Eu sou dos que tenho que voltar...

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  2. JPB
    Escusavas de me pôr de lágrima no olho, sempre que lá vou é a primeira vez, e aquele cheiro embriaga-me. É a cidade que me faz dizer, vou voltar e ver aquilo, mas nunca vejo tudo, há um(a) Paris que descobrimos sempre, e diferente mas
    sempre surpeendente. É ela ou os nossos olhos? As nossas memórias?
    Teresinha
    Teresinha

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  3. Gostaria de saber se posso pegar "emprestada" a fotografia maior e posta-la em meu blog, é simplesmente maravilhosa.

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  4. Não conheço Paris e provavelmente jamais a conhecerei, tenho pãnico a viagens longas...

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  5. Et le vin chaud, mon mec, n'oublies pas le vin chaud!

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  6. Olha um primeiro rei... Bien sur, je n'ai pas oublié le vin chaud: "Dá para o calor burguês, o vinho morno"...
    Nilza, sirva-se do que quiser, isto aqui é como Paris. Mas ter medo a viagens longas num país como o Brasil é chato.

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  7. Obrigado pela gentileza.
    Pois é, a PVC que chegou, se instalou e se aliou a alguns sobressaltos, resultado: não entro em avião nem amarrada.

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  8. Na verdade,descobre-se sempre algo de novo na nova/velha Paris quando lá se volta,há sempre algo que nos desperta a atenção e o interesse...uma cidade em evolução!
    Que nostalgia me deu!!!!
    MJM

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