quinta-feira, 23 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

Lugares

Nova Iorque, 1991
Num relance, eu vi Manhattan emergir de uma seara, e travei. O ângulo não era grande: uns metros mais à frente, outros tantos atrás, e já haveria casas, pontes, torres, fios, coisas que estragariam o efeito. Parecia um instante do tempo primordial ferido de anacronismo - dois lugares, dois tempos sobrepostos. Ou uma montagem óbvia para ilustrar qualquer alegoria barata. 

As cidades e o desejo

Bucareste, 1995 
Dali , ao cabo de seis dias e sete noites, o homem chega a Zobaida, cidade branca, bem exposta à lua, com ruas que se viram sobre si próprias como num cotovelo. Conta-se isto da sua fundação: homens de nações diferentes tiveram um sonho igual, viram uma mulher a correr de noite por uma cidade desconhecida, por trás, de cabelos compridos, e estava nua. Sonharam que a seguiam. Ora um ora outro, todos a perderam. Depois do sonho andaram à procura dessa cidade; não a descobriram mas encontraram-se uns aos outros; decidiram construir uma cidade como a do sonho. Na disposição das ruas cada um refez o percurso da sua perseguição; no ponto em que tinha perdido o rasto da fugitiva ordenou diferentemente do sonho os espaços e as paredes de modo que ela já não lhe pudesse fugir.Chegaram mais homens de outros países que haviam tido um sonho como o deles, e na cidade de Zobaida reconheciam algo das ruas do sonho, e mudavam de lugar pórticos e escadas para que se parecessem mais com o caminho da mulher perseguida e para que no ponto em que desaparecera já não tivesse saída.
Os primeiros chegados não compreendiam o que atraía esta gente a Zobaida, a esta feia cidade, a esta ratoeira.

(Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis")


Raios e cervejas